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O diário de Anne Frank

A guerra é algo ruim de muitas formas, mas, o que ninguém fala no geral é como ela consegue ser destrutiva ao ponto de impedir sonhos de serem realizados.

Adaptar algo para qualquer mídia pode ser muito simples ou muito pesaroso. A responsabilidade é grande e o esquecimento de um mínimo detalhe pode acabar comprometendo toda a obra. Quando se acerta, a glória é tão satisfatória que é quase impossível não se tornar atemporal.
O diário de Anne Frank em quadrinho é uma dessas obras atemporais, ou melhor, uma dessas adaptações atemporais. Quando Ari Folman recebeu a missão de transcrever o diário da pequena Anne para quadrinhos, ele não estava muito seguro de que daria certo e mesmo assim aceitou e acertou em sua missão.
Ao decorrer das páginas vamos acompanhar a história de Anne, que após ganhar de aniversário seu diário, passa a ralatar tudo que acontece consigo. Veremos não apenas o desenvolver físico da garota como também o seu desenvolvimento emocional. Iremos nos deparar com suas aflições, anseios, erros e qualidades dentro de uma narrativa fluida e uma arte um tanto quanto expressiva.
A arte de David Polonsky deixa a história ainda mais humana e é através dela que nós vemos a evolução de cada personagem escondido naquele abrigo. A arte consegue ser aflitiva em certos momentos quando a narrativa nos coloca contra a parede em questionamentos muito válidos para nossas vidas e também é acolhedora e afável em momentos simples e descontraídos.
Seria muito difícil adaptar o livro inteiro no quadrinho, então, autor e desenhista tomam uma decisão incrível e arriscada onde alguns relatos do livro são mostrados em forma de texto tendo suas continuidades nos desenhos.  E para quem é atento e leu o livro vai conseguir entender isso perfeitamente enquanto que, quem não tiver tido contato com a obra original vai também achar esplêndido a forma como essas partes são conduzidas.
Um dos pontos mais altos do gibi é poder ver em desenhos a imaginação da jovem Anne e podermos participar de sua angústias, de suas alegrias e tristezas e até mesmo nos irritarmos com ela em momentos que claramente a personagem está errada mas quer estar certa, afinal, qual pessoa em sua juventude não está certo o tempo todo?
Através dos olhos de Anne Frank nós podemos ter um pouquinho de noção de como foi horrível aquele período da guerra para os judeus, é triste ver aquelas pessoas passando fome, suas roupas de deteriorando e não podermos fazer nada para ajudar. O quadrinho, por ter imagens, nos coloca em xeque quase que o tempo todo brincando e testando nossa humanidade.
Por fim, mesmo sabendo qual será o desfecho da história, a torcida para que tudo dê certo é constante e, quando a história acaba, fica aquele gosto amargo na boca porque queremos mais, queremos ver aquele final feliz ao qual estamos acostumados, mas, ele não existe. Quando a última página é virada, o pensamento de como seria viver naquela época, como os sobreviventes conseguiram lidar com tudo isso, e como é a dor de perder uma família batem forte no leitor.
O quadrinho também nos dá alguns questionamentos sobre escolhas, realidade, política e família bem atuais, é comum o leitor pensar como assuntos de 1942 conseguem ser tão atuais e coisas que aconteceram lá estão acontecendo talvez com nossos vizinhos.
As sacadas espalhadas pelas páginas são de um brilhantismo impar, o autor escolhe algumas referências que, para quem tem contato com certas obras vai conseguir entender ainda mais o conceito de terror, dor e tristeza em uma determinada página que é totalmente contrastada com a beleza, riqueza e felicidade de uma página seguinte.
Um ponto negativo talvez esteja na cabeça de quem leu o livro e queira ver certas partes do mesmo nas páginas do quadrinho.
Se pessoa que nunca leu o livro pegar o gibi pela primeira vez vai se prender à narrativa de uma forma tão intensa que, ao final vai buscar conhecer mais sobre Anne Frank e seu diário que são tão importantes como literatura quanto é para entendermos um pouquinho mais sobre o que é ser humano, como perceber o sofrimento de nossos irmãos que podem ser ajudados por nós, mas, optamos por reclamar ao invés de agir.

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Ludinei Neves

Estudante de Análise e Desenvolvimento de Sistemas e futuro educando de Letras baseada em traduções, criação de roteiros e etc. Nerd desde o nascimento sonha com a disseminação da leitura pelo mundo. Um amante da cultura em si, um buscador da resposta vital para a vida, o universo e tudo mais. Amante de quadrinhos e da cultura dos vídeo games, apaixonado por Magic the Gathering e também adora livros, RPG, Holy Avenger e Pipoca e Nanquim.

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