hqsQuadrinhosresenha

Druuna volume 1 resenha.

Quando o erotismo e ficção científica se junta numa beleza descomunal.

Druuna é uma personagem muito popular especialmente nos anos 80 não apenas devido ao erotismo e ficção científica como também por sua crítica social.

Viagem no tempo

Os anos 80 pode ter sido uma década mágica para o cinema, gibis e fantasia, mas, é negro e agressivo para todos que vivem fora desses nichos. É uma década para os fortes onde os fracos não têm vez. Em vários lugares do mundo, muita coisa acontecendo como Diretas já, países ainda se recuperando da guerra, países ainda em guerra e por aí vai.

O racismo em alta, pré conceito por todos os lados seguido de estupros, a AIDS contaminando muitos e outros muitos morrendo por outros tipos de DSTs ou quaisquer outras doenças e pestes espalhadas por vários lugares.
O autor então vem nos mostrar essa década de 80 negra nas páginas de Druuna.

Contexto histórico

Ao decorrer das páginas o leitor pode perceber as várias tentativas de fuga de um tempo que massacra, destrói e corrói. Ao decorrer da história é visível a tentativa de mudança de vida, mas, dentro de um sistema que cada vez mais empurra para baixo e envolve os cidadão em mentiras políticas e religiosas, levando esperança e tirando essa mesma esperança em certos pontos substituindo por puro terror e medo até mesmo de viver.

Várias camadas

Nesse primeiro volume nós vemos as várias camadas do gibi, por um lado, a forte crítica social mostrando a opressão, desespero e luta por melhorias. De outro, temos a aventura de ficção científica ao bom e velho estilo dos anos 80 enquanto para quem gosta de uma boa história erótica vai poder se deliciar de momentos excitantes e prazerosos.

A história

Druuna conta a história de uma mulher que vive em um lugar em decomposição, caindo aos pedaços e para sobreviver ela usa de artimanhas que envolvem seu corpo. Druuna faz isso porque é a única forma de sobreviver, conseguir o soro para evitar que a doença a contamine e também ajudar seu grande amor Schastar que possui a doença. Druuna acaba se vendo em uma trama ainda mais complicada quando descobre que no passado seu amor fez uma infeliz descoberta que acaba o deixando louco e contaminado, ela então parte em busca de respostas e quanto mais as procura, mais desvenda coisas das quais deseja não desvendar.

Um gibi atual cheio referências.

O gibi nesse primeiro momento é cheio de referências das quais um bom leitor de história ou uma pessoa atualizada pega fácil. A referência de uma época em que as mulheres eram tratadas de forma grotesca e não passavam de objetos sexuais e reprodutores. A doença como é contada na história se trata da AIDS que assolava aquela década e os monstros vistos nessa ficção são a prova de como a sociedade via as pessoas  contaminadas e também aquelas que tinham uma opção sexual diferente do Heterossexualismo. Até mesmo um determinado personagem andrógeno traz em sua essência a visão de artistas da época.

Nem tudo são flores.

Mesmo para quem curte uma pegada mais erótica, existem cenas bastante descartáveis em Druuna onde o sexo acontece de forma gratuita apenas para agradar e pode passar a visão de tapa buraco para alguns leitores. Em alguns pontos também existem certas incoerências como uma personagem sendo violentada e, a princípio lutando contra isso, implorando para não estar ali, tendo nitidamente e verbalmente nojo do que está acontecendo para no final das contas dizer que havia gostado de ser violentada.

Estupro, sim, estupro…

Dentro das páginas também terão cenas assim, isso é outro retrato do que acontecia constantemente naquela década e essas cenas são deveras perturbadoras.
Nesse mesmo contexto também vemos como a mulher se virava e como algumas até eram condizentes com tudo isso, afinal, sempre tem alguém para tirar proveito das situações ruins dos outros. Algumas pessoas podem inclusive deixar a leitura de lado nas cenas de estupro porque a narrativa nos coloca para pensar em cada mulher que é estuprada no dia-a-dia e isso pode incomodar muito.

Arte, narrativa e roteiro

O roteiro de Druuna é algo divertido, a arte é incrível e a união desses dois com a narrativa faz com que o leitor fique maluco, perdido e aliviado quando as peças se encaixam. A imersão na trajetória da personagem faz com que o leitor tenha um misto de sentimentos que se espalham entre angústia, alegria, nojo, tristeza, melancólica, raiva entre vários outros e isso é algo tão recorrente na obra que por vezes durante a leitura bate a sensação de procurar saber e entender mais sobre como as mulheres são tratadas em nossos dias e se nós não estamos vivendo numa década de 80 disfarçada.
Druuna é uma história fantástica aos olhos de uns, datada e desnecessária aos olhos de outros, mas, que traz em seus balões situações recorrentes em nossos dias e questionamentos muito válidos não somente sobre as mulheres como também a forma como olhamos para nosso próximo. Teve seu lançamento completo em 3 edições ao longo de 2019 pela editora Pipoca Nanquim e pode ser adquirido no site da Amazon ou no site da própria editora.

Mostrar mais

Ludinei Neves

Estudante de Análise e Desenvolvimento de Sistemas e futuro educando de Letras baseada em traduções, criação de roteiros e etc. Nerd desde o nascimento sonha com a disseminação da leitura pelo mundo. Um amante da cultura em si, um buscador da resposta vital para a vida, o universo e tudo mais. Amante de quadrinhos e da cultura dos vídeo games, apaixonado por Magic the Gathering e também adora livros, RPG, Holy Avenger e Pipoca e Nanquim.

Notícias relacionadas

Deixem seus comentários!

Fechar