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Crítica | O Diabo de Cada Dia é um thriller intenso sobre o fanatismo religioso que garante ótimas performances

Novo lançamento da Netflix critica a depravação moral dos EUA sob a ótica da fé

Até onde o homem pode ir pela sua crença?

Em uma realidade não tão distante em que a ética e a moral são intuitivas, os cidadãos de Knockemstiff vivem com obscurantismo e incivilidade, em um lugar onde a inclemência predomina. O novo longa da Netflix é a adaptação do best-seller gótico de Donald Ray Pollock, lançado em 2011. A trama propõe um mergulho sombrio na vida de diversos personagens que se cruzam em uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos. Com uma direção apreciável de Antonio Campos (Simon Killer) e com direito à narração do próprio Pollock, os dois constroem uma atmosfera baseada na ignorância e hipocrisia humana.

O filme é ambientado entre a Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã, onde acompanhamos como destaque a história do jovem Arvin, interpretado por Tom Holland (Homem-Aranha: Longe de Casa) com um personagem que passou por muitas tragédias durante a sua infância, e que isso o assombra até o seus dias atuais. Em torno dele, também conhecemos um nefasto e peculiar grupo de moradores, como um insano casal de assassinos em série Carl (Jason Clarke) e Sandy (Riley Keough), um pastor profano (Robert Pattinson) e o xerife corrupto Lee Bodecker (Sebastian Stan), onde todos estão entrelaçados em uma viciante narrativa da mais corajosa e tétrica lavra americana.

O roteiro submerso

O script é assinado pelo diretor Antonio Campos e seu irmão Paulo Campos que juntos, constroem com maestria uma trama hiperviolenta ambientada no pós-Segunda Guerra, repleta de personagens abomináveis, cruéis o suficiente para cometerem crimes com a casualidade de quem troca de roupa. Mas isso não é tudo. Há muito mais por trás das manchas de sangue, da avareza e da mesquinharia: o desespero e as limitações de uma cidade pequena, a frustração de seus habitantes e a síntese de quem não equilibra luz e sombra dentro de si.

Elenco aclamado

Nitidamente, o chamariz da obra é a escolha do elenco. De forma esplêndida, a produção de O Diabo de Cada Dia consegue reunir grandes nomes da atual indústria cinematográfica, o que fez com que chamasse ainda mais a atenção do público no decorrer da sua divulgação. Além das estrelas principais já mencionadas, também contamos com as presenças ilustres de Bill Skarsgard (It: A Coisa), Haley Bennett (Devorar), Mia Wasikowska (Alice no País das Maravilhas), Eliza Scanlen (Adoráveis Mulheres) e Harry Melling (Franquia Harry Potter) que inclusive é responsável por uma das melhores cenas do filme.

Soundtrack

A trilha sonora consegue se conectar muito bem com a ambientação e atmosfera do filme. Foram selecionadas canções dos anos 50/60 como The Stanley Brothers, The Delmore Brothers e até mesmo o country gospel com Jim Reeves, fazendo jus à principal característica da obra: a religião. O único fator que talvez tenha ficado defasado é a mixagem de som, onde em algumas cenas percebemos a falta de sincronia entre um momento mais intenso para outro cenário que exige melodias moderadas.

Direção de Arte

A produção conseguiu reproduzir ótimos cenários do clima de cidade do interior, com o mínimo de itens externos organizando de maneira formidável a estruturação do que deveria aparecer nas tomadas, enfatizando o cuidado com móveis, objetos e demais decorações que compõem a época.

Fotografia

O diretor de fotografia Lol Crawley já tem um excelente histórico em obras como Vox Lux, Utopia e 45 anos. Aqui, ele acerta mais uma vez aplicando planos abertos e centralizados em alguns momentos, utilizando uma paleta de cores com tons esverdeados que conseguem representar a proximidade com a natureza, pelo fato da história ser retratada em uma cidade do interior e também adicionando tons azulados referente à frieza dos personagens.

Performances 

Certamente, Tom Holland apresentou a melhor atuação da sua carreira até o momento, temos um personagem que se vê como responsável por corrigir as injustiças do mundo, já que para ele, a justiça divina é sempre colocada em cheque, abominando sempre a ignorância que circula em todo o seu ciclo social.

O notável Sebastian Stan nos mostra mais uma vez que tem facilidade para interpretar personagens de características imorais, como já tínhamos visto anteriormente no seu trabalho em Eu, Tonya. Aqui, apesar de poucos momentos em cena, sua presença é sempre ameaçadora. Enquanto isso, sua meia-irmã na trama Riley Keough também mostra o seu talento em cena como uma mulher que se vê um tanto arrependida pelos seus atos e que agora busca redenção.

Agora, o maior destaque que temos vai para a atuação sublime de Robert Pattinson. Com o seu pastor depravado, Pattinson mais uma vez mostra sua versatilidade, com um trabalho de voz incrível acompanhado de olhares intensos e movimentos minuciosos, sendo a atenção sempre que está em cena com todo o seu brilhantismo.

As pautas ideológicas retratadas podem ser usadas para manipular os mais vulneráveis, a dualidade do ser humano e, de certa forma, como a maldade permeiam diversos aspectos da nossa sociedade. É uma reflexão ousada de forma densa.

Nota:

4,5

4,5

Tendo em vista todos os aspectos mencionados, O Diabo de Cada Dia se consolida como um dos melhores filmes do ano com uma agradável direção cuidadosa na sua narrativa com paralelos entre e o passado e futuro. Além disso, podemos notar um cenário sedutor e aterrorizante onde os justos e corruptos travam uma batalha em que a religião predomina tudo o que existe ali, no qual podemos perceber que é o mundo do próprio homem que o deforma moralmente

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Sammylle Matheus

Amante da sétima arte. Fascinada na relação entre cinema, história e filosofia. Devoradora de quadrinhos, aprecia um bom clássico e combate o crime em Gotham City nas horas vagas.

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