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Resenha | Um pedaço de madeira e aço

“Uma ação vale mais que mil palavras...”

Um dos pontos chave de qualquer história é sua narrativa. Quando esta é bem feita consegue prender o leitor em uma imersão sem igual. É certo que alguns leitores não são pegos pela narrativa e tantos outros nem sabem o significado dessa palavra e é por isso que para um quadrinista é tão complicado fazer com que sua arte seja fluida ao ponto de ter uma boa narrativa para pegar o leitor de jeito. Esse é o caso de autores como o francês Chabouté em sua obra Um pedaço de madeira e aço.

Erros e acertos

Começando pelos erros o mais grave (talvez o único) do quadrinho é que ele acaba, mas, até isso faz parte da vida, a propósito, vida é algo muito mostrado nessa obra nos convidando a refletir não apenas sobre nossas vidas mas também as influências que podemos ou não ter na vida das pessoas.

Quem nunca se sentou num banco de praça? Quem nunca namorou, fez negócios, se encontrou com alguém, ficou esperando, sentou para chorar por ter seu coração partido e tantas outras coisas? O protagonista dessa história é nada mais que um banco de praça que nos convida a acompanhá-lo em sua história e trajetória. Vemos através de suas 334 páginas vidas que vem e vão, histórias que se cruzam, amizades que se formam e lições que são dadas. O quadrinho começa falando de amor, um amor puro, genuíno entre dois adolescentes cravando a marca de seu setimento num banco. Logo em seguida vamos acompanhando eventos que aos poucos vão nos levando para nosso passado nos permitindo lembrar de bons momentos que passamos em lugares como aquele.

A gente vai acompanhando a história de pessoas e animais que acabam criando vínculo com o banco e este por sua vez começa a fazer parte de suas vidas. Um cachorro que usa o banco como abrigo da chuva, um mendigo que usa o banco como cama, pessoas que se sentam para descansar, ler, observar, cantar, tocar, ganhar a vida, se encontrar e fazer do banco apoio para o começo de uma vida fase na vida.

O protagonista da história é um banco, porém, acompanhamos tantas outras histórias e acabamos por consequência nos identificando com alguma delas, desde um romance que não deu certo até um encontro inusitado. O interessante nessa obra é o fato de ela nos dizer tanto sem um balão de fala, sim, esse quadrinho não tem uma fala, logo, tudo fica na nossa imaginação como as reclamações de um guarda toda vez que vê um morador de rua sentado ou deitado no banco e o manda embora ou o pensamento das pessoas que estão sentadas no banco e outras pessoas chegam e se sentam ali também.

Podemos ao decorrer das páginas tirar várias interpretações, desde reclamar do camarada que não aparece em momento algum e mesmo assim sabemos de seu abandono da moça que está esperando um filho dele até entender que antes de reclamar é melhor entender a situação porque podemos estar brigando conosco e não com os outros. Para os emotivos o quadrinho vem cheio de momentos como o amor entre duas pessoas que logo se torna sofrimento quando um perde o outro. O tempo é outro ponto importante aqui, a gente consegue em meio a imagens estáticas ver o tempo passar por cada uma das quatro estações e estamos tão envolvidos em tudo que em alguns casos pensamos até se o banco estaria sentindo frio, calor ou dor.

Tudo isso é possível justamente por conta da arte e narrativa que o autor adota onde ambas estão conversando uma com a outra fazendo com que os momentos aconteçam de forma fluida, imersiva e emocionante. Ao final da obra a gente vê alguns políticos (é o que fica parecendo devido a engravatados gostarem tanto de uma praça) substituírem o banco por outro e tudo muda de rumo porque agora o novo banco é estranho para o cachorro que marcava seu território ali e o animal simplesmente vai embora, a senhora que sentava para ler já não se sente confortável já que o banco se tornou menor que antes, o casal que se conheceu no banco anterior não se senta nesse novo banco por ele ter divisórias e isso pode separá-los. Um pedaço de madeira e aço é uma obra lançada no Brasil pela editora Pipoca e Nanquim e pode ser encontrada no site da Amazon para compra, uma ótima leitura reflexiva e gostosa pronta para ser apreciada com bons momentos que talvez tenhamos esquecido.

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Ludinei Neves

Estudante de Análise e Desenvolvimento de Sistemas e futuro educando de Letras baseada em traduções, criação de roteiros e etc. Nerd desde o nascimento sonha com a disseminação da leitura pelo mundo. Um amante da cultura em si, um buscador da resposta vital para a vida, o universo e tudo mais. Amante de quadrinhos e da cultura dos vídeo games, apaixonado por Magic the Gathering e também adora livros, RPG, Holy Avenger e Pipoca e Nanquim.

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